Thursday, March 10, 2005
Diário da Turma IV - Poesia

TOME NOTA
Segredos da Língua
A língua apresenta-se como um veículo fundamental de difusão de ideias e conteúdos; promove a interacção entre indivíduos e permite o acesso ao conhecimento, à organização do pensamento, à representação da realidade e à regulação de comportamentos.
Os diversos estudos efectuados pela linguística e pela psicolinguística apontam para uma relação entre as estruturas do desenvolvimento da linguagem e as estruturas do conhecimento. Este paralelismo justifica que o seu ensino/aprendizagem, mais do que cingir-se à disciplina de Língua Portuguesa, se desenvolva transversalmente em todas as outras áreas curriculares.
Ainda assim, as actuais orientações metodológicas da didáctica da língua concebem esta aprendizagem a partir da actividade verbal desenvolvida na sala de aula. A aula de Língua Portuguesa é encarada como um espaço de interacção linguística, pedagógica, intelectual, de observação e de intervenção, onde os conteúdos devem ser apresentados de uma forma viva e dinâmica e não como um conjunto de postulados dogmáticos. Daqui resulta uma concepção do papel do professor como agente motivador para estas aprendizagens.
Neste sentido, o professor deve salientar os estímulos que a obra literária possui no sentido de justificar a sua importância artística e cultural e o seu valor criativo, proceder a uma selecção dos textos de acordo com a idade, os interesses e as expectativas dos seus alunos, com o objectivo de formar leitores que compreendam e usufruam de um texto literário e potenciem o estabelecimento de relações sobre os seu conteúdo, o seu valor estético e a corrente literária onde se inserem.
Ainda que não haja consenso sobre a orientação do ensino/aprendizagem da língua – para o desenvolvimento de leitores “competentes” ou para o desenvolvimento de leitores “críticos” – o estímulo de capacidades criativas é sempre objecto de motivação para os alunos.
Neste sentido, importa referir algumas estratégias facilitadoras do ensino/aprendizagem da língua e da literatura, numa tentativa de colmatar hiatos existentes na forma como as crianças e os jovens percepcionam a leitura e, inevitavelmente, a escrita.
Partindo da afirmação de R. Barthes, segundo a qual «o texto literário não está acabado em si mesmo até que o leitor o transforme num objecto de significado, o qual será necessariamente plural», no ensino/aprendizagem da língua e da literatura há que considerar que:
- Um aluno, ao ler uma obra literária, precisa de se sentir suficientemente livre para a interpretar, comentar e avaliar, de acordo com a sua competência literária e com a sua própria sensibilidade;
- Porque a literatura não se aprende como uma mera memorização de obras, mas vivendo-se, o docente deve promover actividades que motivem os alunos a desfrutar da leitura de textos, que lhes permitam interpretá-los, compreendêlos e avaliá-los;
- A tarefa de comentar um texto permite aos alunos o reconhecimento de autores, do estilo das suas obras, os movimentos literários e as características próprias do uso da língua.
Além disso, mais do que à exposição pura da sua análise, o professor deve conduzir o aluno à argumentação das suas escolhas, com base em critérios pessoais.
Delfim Leão, Professor de Estudos Clássicos e poeta
“A poesia é para todos, desde que todos a procurem e respeitem”
É director do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde é docente. Já publicou dois livros de poesia - "Prometeu" e "Grau Feminino da Poesia" - e, em breve, dará ao público leitor mais uma obra poética: "Dois dias e um serão no Inferno". É Delfim Leão, o poeta que nos fala da importância da poesia na actualidade:
Diário da Turma (DT) - Já publicou "Prometeu" e "Grau feminino da poesia". Como poeta contemporâneo, como vê o estudo dos poetas no ensino em Portugal?
Delfim Leão (DL) - A questão não se coloca apenas relativamente à poesia, mas ao peso que as grandes referências literárias devem ter no ensino da língua e na formação pessoal. Actualmente, há sectores de opinião que defendem a substituição de autores e textos paradigmáticos por discursos de uso mais corrente, em obediência a uma visão utilitarista da língua (de que a insistência em aprender línguas estrangeiras quase ao sair do berço é também um reflexo). Ora isso representa um claro empobrecimento da capacidade criativa da escrita e da sensibilidade artística.
DT - Que mais valia pode trazer a poesia a uma criança/um jovem/um adulto?
DL - Há poesia em todas as idades e para todas as idades. Aliás, um mesmo poema pode ser visitado em fases diferentes da vida. A grande vantagem da poesia consiste em verter num discurso geralmente pouco extenso grandes potencialidades simbólicas e hermenêuticas, que se traduzem numa enorme pluralidade de sentidos e de apropriações por parte do leitor. A poesia tem essa capacidade inata para desenvolver aleitura metafórica do mundo e a expressão mítica da realidade, embelezando a experiência de vida.
DT - Por que há quem pense que a poesia é apenas para alguns (quer na perspectiva de quem escreve, quer na de quem lê)?
DL - A poesia é para todos, desde que todos a procurem e respeitem, mas, como noutras áreas, nem todos conseguem atingir igual patamar de compreensão e de qualidade. O ditado que diz que "de médico, poeta e louco, todos nós temos um pouco" não deixa de ter a sua ponta de verdade, mas a excelência é, forçosamente, para raros apenas. A poesia - como todo o acto de criação artística - tem alguns contornos de "alienação", que não é inteiramente um processo volitivo e controlável.
DT - Como se fomenta o gosto (diria paixão) pela poesia?
DL - Essencialmente através da leitura. A atracção pela poesia é torrencial e espontânea em determinadas fases da vida (sobretudo na puberdade), mas esse primeiro ímpeto só se traduz em paixão duradoira se for alimentado por leituras regulares e conscientes (o que é muito diferente de obrigação metódica ou profissional).
DT - Como se aprende a escrever a verdadeira poesia?
DL - Não sei, da mesma forma que não sei se algum dia poderei escrevê la, mas seguramente com sentido de humildade e de autocrítica, e ainda com a dose certa e imponderável de mania ou loucura criativa.
DT - Quem são, em seu entender, os grandes vultos da poesia portuguesa?
DL - Os grandes vultos são os que vão escapando à voragem do tempo; actualmente, gosto sobretudo de Eugénio de Andrade e de Sophia.
DT - E, a nível de autore estrangeiros, quais são os seus poetas preferidos?
DL - Homero continua por ultrapassar, embora muitos outros lhe rendam homenagem, consciente ou não, por emulação ou fractura.
DT - Se fosse professor do ensino básico e secundário, que estratégias implementava para sensibilizar os alunos para a poesia?
DL - Gastaria menos tempo com o arsenal de recursos estilísticos e de técnicas de análise textual (que amiúde servem de muleta para disfarçar a falta de sensibilidade estética) e leria e daria a ler mais - e em voz alta!
DT - E para fomentar os hábitos de leitura em geral?
DL - Não há uma fórmula segura, mas falar com paixão de uma leitura feita pode estimular mais do que muitos discursos moralizadores.
DT - Quando publica o seu próximo livro de poesia? De que trata?
DL - Talvez dentro de um mês e há de chamar se "Dois dias e um serão no Inferno". Trata se de uma tentativa de viagem às profundezas negras e lodosas da sensibilidade, sem saber ainda se conseguirei emergir do fogo fátuo da ilusão…
QUEM CONTA UM CONTO
O Diário
A Verónica e os seus amiguinhos frequentavam a escola mas a sua vida era difícil. Levantavam-
se muito cedo, ainda toda a aldeia estava a dormir.
Era quase sempre noite quando saíam de casa, ouviam-se os galos cantar, anunciando a madrugada, e as janelas pareciam acender-se, lentamente, à medida que as famílias acordavam
para iniciarem um novo dia.
O pior era no Inverno, o frio e chuva gelavam os dedos e o nariz ficava vermelho. Apesar das dificuldades o sonho de ser professora tornava a caminhada mais fácil. Todos os dias Verónica tinha de caminhar alguns quilómetros, a pé, até à sua escolinha. Atravessava montes, vales e ribeiros até encontrar a sua amiga e colega de carteira com quem fazia o resto da caminhada. Depois era mais fácil, conversavam, e a distância parecia mais curta. Foi então que numa dessas viagens tiveram a ideia de fazer um diário da turma. Ficaram felicíssimas e quando a aula começou a Verónica pediu para falar.
- Tive a ideia de fazermos um diário da turma para podermos lembrar as coisas mais importantes que nos acontecem.
A professora ficou radiante e pediu aos seus alunos que falassem sobre a ideia, que trouxessem
novidades para que o diário fosse interessante.
A turma aderiu de imediato, e todos os alunos quiseram colaborar.
Ficou combinado que o Diário começava a partir do primeiro dia de Janeiro.
No final de cada aula todos os alunos tinham uma hora para escreverem no Diário. Nesse dia, a Verónica decidiu falar da alegria de ver nascer o sol e dos campos vestidos de branco. As suas palavras impressionaram a professora e os colegas e, por isso, entendi que devia divulgar o que ela escreveu:
Hoje é o primeiro dia do meu diário. Gostaria de escrever muitas coisas mas não é possível.
Não consigo escrever tudo o que penso, não é possível contar tudo o que vi e vejo quando venho para a escola. Acontecem tantas coisas no mesmo caminho que não consigo contar tudo. Durante a viagem tenho tempo para pensar muitas coisas, para imaginar como o meu cão dorme. Quando saio de casa vou sempre dar-lhe um beijo e digo-lhe para não ficar triste porque voltarei. Ele fica sempre triste, abre um olho e fica a olhar até eu fechar a porta do quintal. Durante algum tempo fico a pensar nisso, a pensar por que razão não posso ficar mais tempo na cama. Com tanto frio e chuva devia ser mais fácil ir à escola. Eu sei que sou eu que moro longe, mas eu durmo pouco e as pernas estão cansadas. Ando a pensar estas coisas mas eu também vejo os campos brancos e o nascer do sol. Às vezes, fico triste mas a minha tristeza é porque tenho sono e não posso ver tudo.
A professora ficou tão impressionada com as palavras de Verónica que decidiu ir buscá-la a casa todos os dias. Assim, ela podia descansar, dormir mais algumas horas, e já sem sono admirar a paisagem e sorrir sem tristeza nos lábios. No outro dia, a Verónica escreveu no Diário da Turma:
O meu cão foi acordar-me e eu senti uma grande alegria.
Obrigado professora. O Diário
SABIA QUE...
- Foi na região asiática situada entre os rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia, que aproximadamente no ano 4000 aC, surgiu o primeiro alfabeto, denominado pelos historiadores por alfabeto pictográfico. Através de desenhos simplificados - os pictogramas - era expressa a realidade daquele tempo.
- A escrita pictográfica provocou o surgimento da escrita fonética. Os povos primitivos sentiram a necessidade de registarem os seus pensamentos e sentimentos. Assim, comunicavam através dos símbolos gráficos que representavam animais, homens-bicho e rituais voltados para as suas culturas, revelando já uma representação do sistema de escrita.
- Pensa-se que a milenar escrita cuneiforme, constituída por gravações em pedras onde se registavam diversas situações da vida quotidiana derivou, provavelmente, de uma escrita pictográfica ainda mais antiga denominada warka, gravada em placas de argila encontradas no templo da cidade de Uruk, a sul da cidade de Bagdade.
- A escrita mnemónica é constituída quer por um amplo conjunto de cordões formados por fios de lãs de cores diversas, quer por colares de conchas justapostas cujas combinações formam figuras geométricas, chegando alguns deles a seis ou sete mil conchas. A escrita mnemónica distingue-se da escrita propriamente dita por servir apenas para representar figurativamente uma só ideia, um só conceito.
- A civilização egípcia utilizava ideogramas figurativos que deram origem à escrita hieroglífica, que significa “escrita gravada”, fundamental para a actividade religiosa. Este tipo de escrita baseia-se em desenhos - os hieróglifos - que representam objectos, figuras humanas, animais, plantas. Para escrever usavam o papiro, uma planta. Esta escrita foi evoluindo e, de uma maneira mais simplificada, surgiu a escrita hierática (usada pelos sacerdotes) e depois, outra ainda mais simplificada, usada pelos escribas, a escrita demótica.
- O alfabeto latino teve origem numa versão de um sistema de escrita modificado pelos gregos e anteriormente criado pelos fenícios, um povo semita originário da costa do mar vermelho, actual Líbano. O que levou os fenícios a criarem o alfabeto foi, a necessidade de controlar e facilitar o comércio. O alfabeto fenício possuía 22 letras.
- Os antigos gregos transformaram o esquema de escrita silábica dos fenícios, adaptando-o pelo uso de uma caracter escrito individual para cada som de consoante e vogal (acrescentando cinco vogais) da língua grega. Todos os alfabetos modernos descendem da versão grega.
Alfabeto é uma palavra de origem latina (alfabetum) constituída pelas duas primeiras letras do alfabeto grego, alfa e beta, correspondentes ao nosso a e b, respectivamente, significando o conjunto de letras usadas para escrever.
Segredos da Língua
A língua apresenta-se como um veículo fundamental de difusão de ideias e conteúdos; promove a interacção entre indivíduos e permite o acesso ao conhecimento, à organização do pensamento, à representação da realidade e à regulação de comportamentos.
Os diversos estudos efectuados pela linguística e pela psicolinguística apontam para uma relação entre as estruturas do desenvolvimento da linguagem e as estruturas do conhecimento. Este paralelismo justifica que o seu ensino/aprendizagem, mais do que cingir-se à disciplina de Língua Portuguesa, se desenvolva transversalmente em todas as outras áreas curriculares.
Ainda assim, as actuais orientações metodológicas da didáctica da língua concebem esta aprendizagem a partir da actividade verbal desenvolvida na sala de aula. A aula de Língua Portuguesa é encarada como um espaço de interacção linguística, pedagógica, intelectual, de observação e de intervenção, onde os conteúdos devem ser apresentados de uma forma viva e dinâmica e não como um conjunto de postulados dogmáticos. Daqui resulta uma concepção do papel do professor como agente motivador para estas aprendizagens.
Neste sentido, o professor deve salientar os estímulos que a obra literária possui no sentido de justificar a sua importância artística e cultural e o seu valor criativo, proceder a uma selecção dos textos de acordo com a idade, os interesses e as expectativas dos seus alunos, com o objectivo de formar leitores que compreendam e usufruam de um texto literário e potenciem o estabelecimento de relações sobre os seu conteúdo, o seu valor estético e a corrente literária onde se inserem.
Ainda que não haja consenso sobre a orientação do ensino/aprendizagem da língua – para o desenvolvimento de leitores “competentes” ou para o desenvolvimento de leitores “críticos” – o estímulo de capacidades criativas é sempre objecto de motivação para os alunos.
Neste sentido, importa referir algumas estratégias facilitadoras do ensino/aprendizagem da língua e da literatura, numa tentativa de colmatar hiatos existentes na forma como as crianças e os jovens percepcionam a leitura e, inevitavelmente, a escrita.
Partindo da afirmação de R. Barthes, segundo a qual «o texto literário não está acabado em si mesmo até que o leitor o transforme num objecto de significado, o qual será necessariamente plural», no ensino/aprendizagem da língua e da literatura há que considerar que:
- Um aluno, ao ler uma obra literária, precisa de se sentir suficientemente livre para a interpretar, comentar e avaliar, de acordo com a sua competência literária e com a sua própria sensibilidade;
- Porque a literatura não se aprende como uma mera memorização de obras, mas vivendo-se, o docente deve promover actividades que motivem os alunos a desfrutar da leitura de textos, que lhes permitam interpretá-los, compreendêlos e avaliá-los;
- A tarefa de comentar um texto permite aos alunos o reconhecimento de autores, do estilo das suas obras, os movimentos literários e as características próprias do uso da língua.
Além disso, mais do que à exposição pura da sua análise, o professor deve conduzir o aluno à argumentação das suas escolhas, com base em critérios pessoais.
Delfim Leão, Professor de Estudos Clássicos e poeta
“A poesia é para todos, desde que todos a procurem e respeitem”
É director do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde é docente. Já publicou dois livros de poesia - "Prometeu" e "Grau Feminino da Poesia" - e, em breve, dará ao público leitor mais uma obra poética: "Dois dias e um serão no Inferno". É Delfim Leão, o poeta que nos fala da importância da poesia na actualidade:
Diário da Turma (DT) - Já publicou "Prometeu" e "Grau feminino da poesia". Como poeta contemporâneo, como vê o estudo dos poetas no ensino em Portugal?
Delfim Leão (DL) - A questão não se coloca apenas relativamente à poesia, mas ao peso que as grandes referências literárias devem ter no ensino da língua e na formação pessoal. Actualmente, há sectores de opinião que defendem a substituição de autores e textos paradigmáticos por discursos de uso mais corrente, em obediência a uma visão utilitarista da língua (de que a insistência em aprender línguas estrangeiras quase ao sair do berço é também um reflexo). Ora isso representa um claro empobrecimento da capacidade criativa da escrita e da sensibilidade artística.
DT - Que mais valia pode trazer a poesia a uma criança/um jovem/um adulto?
DL - Há poesia em todas as idades e para todas as idades. Aliás, um mesmo poema pode ser visitado em fases diferentes da vida. A grande vantagem da poesia consiste em verter num discurso geralmente pouco extenso grandes potencialidades simbólicas e hermenêuticas, que se traduzem numa enorme pluralidade de sentidos e de apropriações por parte do leitor. A poesia tem essa capacidade inata para desenvolver aleitura metafórica do mundo e a expressão mítica da realidade, embelezando a experiência de vida.
DT - Por que há quem pense que a poesia é apenas para alguns (quer na perspectiva de quem escreve, quer na de quem lê)?
DL - A poesia é para todos, desde que todos a procurem e respeitem, mas, como noutras áreas, nem todos conseguem atingir igual patamar de compreensão e de qualidade. O ditado que diz que "de médico, poeta e louco, todos nós temos um pouco" não deixa de ter a sua ponta de verdade, mas a excelência é, forçosamente, para raros apenas. A poesia - como todo o acto de criação artística - tem alguns contornos de "alienação", que não é inteiramente um processo volitivo e controlável.
DT - Como se fomenta o gosto (diria paixão) pela poesia?
DL - Essencialmente através da leitura. A atracção pela poesia é torrencial e espontânea em determinadas fases da vida (sobretudo na puberdade), mas esse primeiro ímpeto só se traduz em paixão duradoira se for alimentado por leituras regulares e conscientes (o que é muito diferente de obrigação metódica ou profissional).
DT - Como se aprende a escrever a verdadeira poesia?
DL - Não sei, da mesma forma que não sei se algum dia poderei escrevê la, mas seguramente com sentido de humildade e de autocrítica, e ainda com a dose certa e imponderável de mania ou loucura criativa.
DT - Quem são, em seu entender, os grandes vultos da poesia portuguesa?
DL - Os grandes vultos são os que vão escapando à voragem do tempo; actualmente, gosto sobretudo de Eugénio de Andrade e de Sophia.
DT - E, a nível de autore estrangeiros, quais são os seus poetas preferidos?
DL - Homero continua por ultrapassar, embora muitos outros lhe rendam homenagem, consciente ou não, por emulação ou fractura.
DT - Se fosse professor do ensino básico e secundário, que estratégias implementava para sensibilizar os alunos para a poesia?
DL - Gastaria menos tempo com o arsenal de recursos estilísticos e de técnicas de análise textual (que amiúde servem de muleta para disfarçar a falta de sensibilidade estética) e leria e daria a ler mais - e em voz alta!
DT - E para fomentar os hábitos de leitura em geral?
DL - Não há uma fórmula segura, mas falar com paixão de uma leitura feita pode estimular mais do que muitos discursos moralizadores.
DT - Quando publica o seu próximo livro de poesia? De que trata?
DL - Talvez dentro de um mês e há de chamar se "Dois dias e um serão no Inferno". Trata se de uma tentativa de viagem às profundezas negras e lodosas da sensibilidade, sem saber ainda se conseguirei emergir do fogo fátuo da ilusão…
QUEM CONTA UM CONTO
O Diário
A Verónica e os seus amiguinhos frequentavam a escola mas a sua vida era difícil. Levantavam-
se muito cedo, ainda toda a aldeia estava a dormir.
Era quase sempre noite quando saíam de casa, ouviam-se os galos cantar, anunciando a madrugada, e as janelas pareciam acender-se, lentamente, à medida que as famílias acordavam
para iniciarem um novo dia.
O pior era no Inverno, o frio e chuva gelavam os dedos e o nariz ficava vermelho. Apesar das dificuldades o sonho de ser professora tornava a caminhada mais fácil. Todos os dias Verónica tinha de caminhar alguns quilómetros, a pé, até à sua escolinha. Atravessava montes, vales e ribeiros até encontrar a sua amiga e colega de carteira com quem fazia o resto da caminhada. Depois era mais fácil, conversavam, e a distância parecia mais curta. Foi então que numa dessas viagens tiveram a ideia de fazer um diário da turma. Ficaram felicíssimas e quando a aula começou a Verónica pediu para falar.
- Tive a ideia de fazermos um diário da turma para podermos lembrar as coisas mais importantes que nos acontecem.
A professora ficou radiante e pediu aos seus alunos que falassem sobre a ideia, que trouxessem
novidades para que o diário fosse interessante.
A turma aderiu de imediato, e todos os alunos quiseram colaborar.
Ficou combinado que o Diário começava a partir do primeiro dia de Janeiro.
No final de cada aula todos os alunos tinham uma hora para escreverem no Diário. Nesse dia, a Verónica decidiu falar da alegria de ver nascer o sol e dos campos vestidos de branco. As suas palavras impressionaram a professora e os colegas e, por isso, entendi que devia divulgar o que ela escreveu:
Hoje é o primeiro dia do meu diário. Gostaria de escrever muitas coisas mas não é possível.
Não consigo escrever tudo o que penso, não é possível contar tudo o que vi e vejo quando venho para a escola. Acontecem tantas coisas no mesmo caminho que não consigo contar tudo. Durante a viagem tenho tempo para pensar muitas coisas, para imaginar como o meu cão dorme. Quando saio de casa vou sempre dar-lhe um beijo e digo-lhe para não ficar triste porque voltarei. Ele fica sempre triste, abre um olho e fica a olhar até eu fechar a porta do quintal. Durante algum tempo fico a pensar nisso, a pensar por que razão não posso ficar mais tempo na cama. Com tanto frio e chuva devia ser mais fácil ir à escola. Eu sei que sou eu que moro longe, mas eu durmo pouco e as pernas estão cansadas. Ando a pensar estas coisas mas eu também vejo os campos brancos e o nascer do sol. Às vezes, fico triste mas a minha tristeza é porque tenho sono e não posso ver tudo.
A professora ficou tão impressionada com as palavras de Verónica que decidiu ir buscá-la a casa todos os dias. Assim, ela podia descansar, dormir mais algumas horas, e já sem sono admirar a paisagem e sorrir sem tristeza nos lábios. No outro dia, a Verónica escreveu no Diário da Turma:
O meu cão foi acordar-me e eu senti uma grande alegria.
Obrigado professora. O Diário
Texto de António Vilhena
SABIA QUE...
- Foi na região asiática situada entre os rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia, que aproximadamente no ano 4000 aC, surgiu o primeiro alfabeto, denominado pelos historiadores por alfabeto pictográfico. Através de desenhos simplificados - os pictogramas - era expressa a realidade daquele tempo.
- A escrita pictográfica provocou o surgimento da escrita fonética. Os povos primitivos sentiram a necessidade de registarem os seus pensamentos e sentimentos. Assim, comunicavam através dos símbolos gráficos que representavam animais, homens-bicho e rituais voltados para as suas culturas, revelando já uma representação do sistema de escrita.
- Pensa-se que a milenar escrita cuneiforme, constituída por gravações em pedras onde se registavam diversas situações da vida quotidiana derivou, provavelmente, de uma escrita pictográfica ainda mais antiga denominada warka, gravada em placas de argila encontradas no templo da cidade de Uruk, a sul da cidade de Bagdade.
- A escrita mnemónica é constituída quer por um amplo conjunto de cordões formados por fios de lãs de cores diversas, quer por colares de conchas justapostas cujas combinações formam figuras geométricas, chegando alguns deles a seis ou sete mil conchas. A escrita mnemónica distingue-se da escrita propriamente dita por servir apenas para representar figurativamente uma só ideia, um só conceito.
- A civilização egípcia utilizava ideogramas figurativos que deram origem à escrita hieroglífica, que significa “escrita gravada”, fundamental para a actividade religiosa. Este tipo de escrita baseia-se em desenhos - os hieróglifos - que representam objectos, figuras humanas, animais, plantas. Para escrever usavam o papiro, uma planta. Esta escrita foi evoluindo e, de uma maneira mais simplificada, surgiu a escrita hierática (usada pelos sacerdotes) e depois, outra ainda mais simplificada, usada pelos escribas, a escrita demótica.
- O alfabeto latino teve origem numa versão de um sistema de escrita modificado pelos gregos e anteriormente criado pelos fenícios, um povo semita originário da costa do mar vermelho, actual Líbano. O que levou os fenícios a criarem o alfabeto foi, a necessidade de controlar e facilitar o comércio. O alfabeto fenício possuía 22 letras.
- Os antigos gregos transformaram o esquema de escrita silábica dos fenícios, adaptando-o pelo uso de uma caracter escrito individual para cada som de consoante e vogal (acrescentando cinco vogais) da língua grega. Todos os alfabetos modernos descendem da versão grega.
Alfabeto é uma palavra de origem latina (alfabetum) constituída pelas duas primeiras letras do alfabeto grego, alfa e beta, correspondentes ao nosso a e b, respectivamente, significando o conjunto de letras usadas para escrever.
